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A
PRESERVAÇÃO
DOS ENSINAMENTOS ORIGINAIS DO ISLAM Não poderia haver nada em comum entre o verdadeiro e o falso e não há no mundo duas coisas mais opostas uma à outra que estas. Nas coisas materiais e vulgares da vida quotidiana, os malefícios da falsidade são óbvios e reconhecidos por todos. É claro que em assuntos de salvação eterna, de crenças, e dos ensinamentos originais de uma religião, o malefício que a falsidade provoca transcendem todos os outros males. Um homem honesto e razoável não teria nenhuma dificuldade em deduzir se determinado ensinamento é justo e aceitável, ou não. Em matéria de dogmas, o que freqüentemente ocorre é que, primeiro julgamos a pessoa do mestre antes dos preceitos que transmite. Se o achamos confiável, tanto mais facilmente nos deixamos persuadir em reconhecer nossas próprias deficiências em entender uma parte ao menos dos ensinamentos dele em lugar de rejeitarmos por completo as suas palavras. Por essa razão, a verificação da autenticidade das palavras e dos ensinamentos, especialmente se o seu autor houver morrido, torna-se imperativa. Todas as religiões mais importantes do mundo se baseiam em certos livros sagrados, os quais são na maioria das vezes atribuídos a revelações Divinas. Seria patético se, por alguma infelicidade, ocorresse de perdermos o texto original da revelação; a reposição jamais seria totalmente igual ao que foi perdido. Brâmanes, Budistas, Judeus, Persas e Cristãos podem comparar os métodos empregados para preservar os ensinamentos básicos de suas respectivas religiões com os dos muçulmanos. Quem escreveu os livros deles? Quem os transmitiu de geração a geração? Essa transmissão tem sido dos textos originais ou somente de versões ou traduções destes? Não tem as cópias desses textos sido afetadas pelas as guerras fratricidas? Não existem contradições ou lacunas internas às quais se encontram referências alhures? Estas são apenas algumas das perguntas que podem ser propostas e que exigem respostas satisfatórias. Meios de Preservação A altura do tempo em que surgiram aquilo a que chamamos de grandes religiões, os homens dependiam não apenas de suas memórias, mas haviam inventado a arte de escrever, para preservar os seus pensamentos, pois a escrita durava mais do que a recordação individual dos seres humanos visto estes terem um ciclo limitado de vida. Ainda assim, nenhum desses dois meios é infalível se levado em conta separadamente. É uma questão de vivência diária de que aquilo que se escreve e em seguida se revisa, ao fazê-lo, descobre-se erros inadvertidos, omissões de letras ou até de palavras, repetição de opinião do próprio autor, que também corrige seu estilo, seus pensamentos, seus argumentos, e às vezes, reescreve o documento inteiro. O mesmo é verdade da faculdade de memória. Aqueles que tem a obrigação ou o hábito de decorar algum texto para recitá-lo posteriormente, especialmente quando esse texto contém passagens longas, sabem que não raro lhes falha a memória até durante a recitação; e eles saltam passagens, misturam uma com outra, ou não recordam de modo algum a seqüência; às vezes, o texto certo permanece no subconsciente e é relembrado em algum momento posterior ou ao se refrescar a memória pela indicação feita por alguém ou por consulta ao texto de um documento escrito. O Profeta do Islam, Muhammad Os Ensinamentos Islâmicos Os ensinamentos do Islam se
baseiam principalmente nas coisas que o Profeta Muhammad A História do Alcorão "Alcorão" significa literalmente, leitura, ou recitação ao ditar estes textos aos seus discípulos, o Profeta afirmava que eram eles a revelação Divina que lhe havia sido feita. Ele não ditou tudo de uma só vez; as revelações sobrevieram-lhe em fragmentos, de tempos em tempos. Tão logo ele recebia uma, imediatamente comunicava aos discípulos e não só pedia que a decorassem <<de maneira a poder recitá-la durante o culto>>, como também de escrevê-la e produzir cópias. Em cada uma de tais ocasiões ele indicava o lugar preciso da nova revelação no texto; sua compilação não era entretanto, cronológica. Não se pode admirar suficientemente a preocupação e cuidado mantido com a exatidão, principalmente ao se levar em consideração o padrão cultural dos árabes daqueles tempos. É razoável crer que as primeiras revelações recebidas pelo Profeta não foram registradas por escrito imediatamente, pela simples razão de que até então não tinha ele nem discípulos nem seguidores. Estas partes iniciais não foram nem numerosas nem muito longas. Não houve risco de o Profeta esquecer-se delas, visto que as recitava com freqüência nas suas orações e nas palestras e pregações. Alguns fatos da história nos proporcionam uma idéia do que aconteceu. Considera-se que Ômar foi a quadragésima pessoa a converter-se ao Islam. Isto se refere ao ano 5 da Missão (8 anos antes da Hégira), já nessa época existiam certos capítulos do Alcorão, e, como relata Ibn Hicham, foi devido à impressão profunda causada pela leitura de algum desses documentos, que Ômar converteu-se ao Islam. Não sabemos com precisão quando foi que se estabeleceu o costume de registrar o Alcorão, mas há poucas dúvidas de que nos dezoito anos finais da vida do Profeta, o número de muçulmanos crescia diariamente, assim como o número de cópias do texto sagrado. O Profeta recebia as revelações
em fragmentos, e não é mais do que natural que o texto revelado se referisse
aos problemas da época. Podia acontecer de vir a falecer um dos companheiros; a
revelação se dedicaria à promulgar a lei da herança; não poderia ser
referente à lei de penalização do furto, por exemplo, a que fosse revelada
naquela ocasião. As revelações continuaram durante toda a vida missionária
de Muhammad A natureza das revelações exigia que o Profeta as repetisse constantemente em suas recitações e revisasse continuamente a forma que as coleções dos fragmentos tinham que assumir. É acreditadamente sabido que o Profeta recitava anualmente, no mês de Ramadan, perante o Anjo Gabriel, a parte do Alcorão até então revelada, e de que, no último ano de sua vida, Gabriel requereu-lhe que recitasse duas vezes o texto completo. Daí o Profeta deduziu que estava se aproximando a hora de sua partida desta vida. O Profeta costumava revisar durante o mês do jejum os versículos e capítulos acumulados e colocá-los na ordem adequada. Isto era necessário em face da continuidade das novas revelações. É também sabido que o Profeta tinha o hábito de celebrar um culto adicional de louvor, no mês do jejum, todas as noites, às vezes até em congregação, durante o qual ele recitava o Alcorão desde o princípio até o final, completando esta tarefa no curso do mês. Este ritual de ''Tarawih'' continua a ser observado com grande devoção até os nossos dias. Quando o Profeta exalou seu último suspiro, estava em marcha uma rebelião em certas partes do país. Ao subjugá-la, caíram várias pessoas que conheciam o Alcorão de cor. O Califa Abu Bakr sentiu então a urgência de codificar o Alcorão, fazendo com que a tarefa fosse terminada uns poucos meses após a morte do Profeta. Nos últimos anos de sua vida, o Profeta costumava empregar Zaid Ibn Sábit como seu principal escriba para tomar o ditado das revelações recebidas mais recentemente. Abu Bakr encarregou esse mesmo escriba da tarefa de preparar uma cópia inteligível do texto completo, na forma de um livro. Nessa época havia em Madina diversos ''Hafizes'' (aqueles que sabiam o Alcorão de cor), e Zaid era um deles. O Califa ordenou-lhe extrair duas cópias de cada parte do texto antes de sua inclusão no todo. Por requisição do Califa, o povo de Madina trazia para Zaid as cópias que possuíam dos vários fragmentos. Os ricos haviam mandado inscrevê-los em pergaminhos ou pedaços de couro; os pobres os inscreveram em omoplatas, ossos, pedras planas e até em cacos de cerâmica. As fontes afirmam autorizadamente que somente dois versículos tiveram uma única prova documental e que o restante se baseou nas numerosas cópias produzidas. A cópia inteligível assim elaborada recebeu o nome de Mus'haf. Ela era guardada sob custódia do Califa Abu Bakr, e depois dele pelo seu sucessor Umar. Enquanto isso, o estudo do Alcorão era encorajado por todos os cantos do império Muçulmano. O Califa Umar sentiu a necessidade de enviar cópias do texto autêntico aos centros de províncias, para evitar desvirtuamentos; mas coube ao seu sucessor. Uthman, levar a cabo esta tarefa, um dos seus tenentes ao retornar da longínqua Armênia, relatou ter encontrado cópias divergentes do Alcorão, e de que freqüentemente havia desentendimentos entre os preceptores do Livro por causa dessas divergências. Othman ordenou imediatamente que a cópia preparada para Abu Bakr fosse confiada a uma comissão presidida pelo já mencionado Zaid Ibn Sábit, para que fossem preparadas sete cópias; e autorizou-lhe que atualizasse se necessário a ortografia antiga. Quando a tarefa foi terminada, o Califa mandou que fosse feita a leitura pública dessa nova "edição", perante os especialistas presentes na capital, que foram companheiros do Profeta, enviando então estas cópias aos diferentes pontos centrais do mundo Islâmico, ordenando que daí em diante todas as cópias fossem baseadas exclusivamente naquela edição autêntica. Mandou destruir as cópias que de alguma maneira divergissem do texto admitido desse modo como sendo o oficial. É inteiramente concebível que as grandes conquistas militares dos primeiros muçulmanos tivessem persuadido algumas figuras hipócritas de proclamar sua conversão ao Islam externamente, por motivos materiais, e de tentar prejudicá-lo de um modo clandestino. Eles poderiam ter fabricado versões do Alcorão com inserções falsas. As lágrimas de crocodilo derramadas diante da ordem do califa Uthman para que fossem destruídas as cópias não autenticadas do Alcorão, só o podem ter sido por tais hipócritas. É sabido que o Profeta às vezes abolia certos versículos transmitidos ao povo anteriormente, fazendo isso por força das novas revelações Divinas. Havia companheiros que tinham aprendido a primeira versão, mas desconheciam as modificações posteriores ou por virem a falecer ou por se domiciliarem fora de Madina. Esses podem ter deixado cópias para os seus descendentes, as quais, apesar de serem autênticas, eram desatualizadas. Outrossim, alguns muçulmanos tinham o costume de pedir ao Profeta explicação de certos termos empregados no texto sagrado, anotando tais explicações nas margens de suas cópias do Alcorão, para que não as esquecessem. As cópias feitas mais tarde, com base nestes textos anotados podiam às vezes ter gerado confusão quanto ao conteúdo do texto. Apesar da ordem de Uthman para que todos esses textos inexatos fossem destruídos, no 3º e 4º século da Hégira existia material suficiente para compilar obras volumosas sobre as "Variações no Alcorão". Esse material chegou até o nosso tempo, e um estudo mais apurado mostra que essas variações foram causadas ou pelos erros cometidos ao se decifrar a antiga escrita árabe, a qual nem possuía sinais vocálicos nem distinguia entro letras parecidas com pontos, como se faz atualmente. Além do mais, existiam diversos dialetos em diferentes regiões, e o Profeta havia autorizado que os muçulmanos dessas regiões recitassem o Alcorão em concordância com seus dialetos, e até de substituir palavras que lhes eram desconhecidas por outras que entendessem melhor. Esta foi meramente uma medida emergente de graça e clemência. À época do Califa Uthman entretanto, a instrução pública havia evoluído bastante e se achou desejável que essas concessões não fossem mais toleradas para não afetar o texto Divino e permitir que se enraizassem leituras variantes. As cópias do Alcorão enviadas por Uthman aos centros das províncias desapareceram gradativamente nos séculos que se seguiram; tendo sobrevivido até aos nossos tempos somente uma dessas cópias, que está atualmente em Tashkent. O governo Czarista da Rússia publicou esse texto junto com uma reprodução fac-símile; e pode-se constatar que existe uma identidade total entre essa cópia e o texto em uso corrente. O mesmo é verdade do outro manuscrito existente do Alcorão, tanto completo como fragmentado, que data do primeiro século da Hégira. O hábito de decorar o texto do Alcorão data do tempo do próprio Profeta. Os califas e chefes de estados muçulmanos sempre encorajaram este hábito. Uma feliz coincidência o confirmou, desde o princípio, os muçulmanos estavam acostumados a ler uma obra diante do seu autor ou de um dos seus pupilos, e obter autorização para transmitir adiante tal obra após as necessárias dele, prosseguindo esta corrente até alcançar o Profeta como fonte. O autor destas linhas estudou o Alcorão em Madina com o Shaykh Hassan Ach-Cha'ri e o certificado que obteve observa, entre outras coisas, a corrente de mestres e de como o último destes havia estudado simultaneamente com Uthman, 'Ali, Ibn Mass'ud, Ubai Ibn Ka'b e Saad Ibn Sábit (todos estes companheiros de Profeta), e de que todos eles haviam aprendido de um texto exatamente idêntico. O número de hafizes atualmente se conta em todo o mundo em centenas de milhares, e milhões de cópias do texto existem por toda a parte do planeta. E o que merece ser ressaltado especialmente é de que não existe absolutamente nenhuma diferença entre os textos usados. O original do Alcorão foi escrito em árabe o mesmo texto continua em uso. Traduções tem sido feitas para todos os idiomas mais importantes do mundo, umas mais, outras menos, úteis para aqueles que desconhecem o árabe. Deve ser lembrado entretanto que foi no idioma árabe original que o texto foi-nos transmitido, e de que não tem havido motivos para reverter para o árabe qualquer das traduções posteriores existentes. Um texto no idioma original, uma codificação autorizada pelo próprio Profeta, a preservação contínua pelo duplo controle simultâneo de memorizar e escrever, exercido por um incontável número de indivíduos de cada geração, e a ausência de quaisquer variações desse texto, estas são algumas das características notáveis do Alcorão, o livro Sagrado dos muçulmanos. O Conteúdo do Alcorão Como já foi afirmado, os muçulmanos
acreditam que o Alcorão é a palavra de Deus, revelada ao Seu Mensageiro
Muhammad Deus é transcendente e está além de qualquer percepção física do homem; e é por intermédio de um mensageiro celestial, um Anjo, que Deus faz com que a Sua vontade e a Sua ordem sejam reveladas ao Seu mensageiro humano, pelo bem da humanidade. Deus está acima de quaisquer limitações da linguagem. Podemos, para explicar, usar a metáfora de que os profetas são lâmpadas, e que a revelação é a corrente elétrica; em contato com a corrente, a lâmpada se acende de acordo com a sua voltagem e cor. O idioma nativo do profeta é a cor da lâmpada. A energia da lâmpada, a corrente e outras coisas são determinadas pelo Próprio Deus; o fator humano é mero instrumento da transmissão, um simples condutor. O Alcorão está endereçado a toda a humanidade, sem distinção de raça, região ou época. Além do mais, ele busca guiar o homem em todos os caminhos da vida: espiritual, temporal, individual e coletivo. Ele contém as diretrizes para o comportamento do chefe de Estado assim como para o do plebeu, dos ricos tanto quanto dos pobres, na paz como na guerra, para a cultura espiritual bem como para o comércio e para o bem-estar material. O Alcorão busca primeiramente desenvolver a personalidade do indivíduo: cada criatura será pessoalmente responsável perante seu Criador. Com este propósito, o Alcorão não apenas ordena, mas também procura convencer. Ele apela à razão do homem, e relata histórias, parábolas e metáforas. Ele descreve os atributos de Deus, Aquele que é Uno, Criador de tudo, Onipotente, Poderoso, capaz de ressuscitar-nos após a morte e de julgar nosso comportamento mundano, Justo, Misericordioso. Ele contém também as maneiras de se louvar a Deus, mostrando-nos quais são as melhores orações, quais são os deveres do homem em relação a Deus, aos seus semelhantes e a si mesmo; o conceito principal que o Alcorão envolve é o de que não pertencemos a nós mesmos e sim a Deus. O Alcorão fala sobre as melhores regras relacionadas com a vida social, comercial, matrimonial, de herança, lei penal, lei internacional e daí por diante. Porém, o Alcorão não é um livro no sentido comum da palavra; ele é uma coletânea das Palavras de Deus, reveladas de tempos em tempos, ao longo de vinte e três anos, ao Seu Mensageiro perante os seres humanos. O Rei dá Suas instruções ao Seu embaixador; portanto, há coisas compreendidas e outras implícitas; há repetições e até variações na forma de expressão. Assim, Deus fala as vezes na primeira pessoa e outras, na terceira pessoa do verbo. Ele diz "Eu", assim como diz "Nós" ou "Ele", mas nunca "Eles". É uma coletânea de revelações transmitidas aos poucos, e por isso, devemos ler contínua e repetidamente para melhor assimilar o significado. Ele contém diretrizes para todos, em todos os lugares e situações e para todos os tempos. A dicção e o estilo do Alcorão são magníficos e apropriados à sua qualidade Divina. Sua recitação comove o espírito até daqueles que só o escutam, mesmo sem compreendê-lo. De passagem, o Alcorão, em virtude de sua reivindicação de ser de origem Divina, desafiou aos homens e aos espíritos a produzirem em conjunto, mesmo que uns poucos versículos iguais ao que ele contém. O desafio permanece sem resposta até hoje. As Tradições (Hadith) As narrações de Muhammad O Alcorão recorda dezenas de vezes a importância jurídica das tradições. "... Obedecei a Deus e obedecei ao Mensageiro.'' (4ª Surata, versículo 59). "Aceitai o que vos dê o Mensageiro, e abstende-vos de quanto ele vos proíba." (59ª Surata, versículo 7). "Não fala por capricho; não é senão a inspiração que lhe foi revelada." (53ª Surata, versículos 3-4). "Realmente, tendes no Mensageiro de Deus um excelente exemplo para vós e para aqueles que esperam contemplar a Deus, deparar com o Dia do Juízo Final, mencionando Deus freqüentemente." (33ª Surata, versículo 21). Assim, fosse o que fosse que o
Mensageiro ordenava, era, aos olhos da comunidade, a vontade do Autor Divino.
Havia casos em que o Profeta Muhammad O Alcorão é freqüentemente
sucinto; é na prática do Profeta Muhammad A importância das tradições
para os muçulmanos é ainda maior pelo fato de que o Profeta Muhammad Ele fundou um Estado, ao qual administrava como chefe supremo, mantendo a paz e a ordem internas, liderando o exército para a defesa externa, julgando e decidindo os litígios dos seus súditos, punindo os criminosos, e legislando sobre todos os assuntos da vida. Ele casou, e deixou um exemplo de vida familiar. Outro fato importante é o de que ele não se colocou acima da lei comum, a mesma que ele impunha aos outros. Sua conduta não era apenas um comportamento particular, senão uma interpretação e aplicação minuciosa dos seus ensinamentos. Muhammad Documentos Oficiais De um trecho do ''Tárikh'' de
At-Tabari, verificamos que, quando os muçulmanos de Makkah, sendo perseguidos
por seus compatriotas, foram refugiar-se na Abissínia, o Profeta Muhammad Logo depois de sua chegada a
Madina, ele conseguiu fundar ali, uma cidade Estado, constituída de habitantes
muçulmanos como de não-muçulmanos; ele dotou esse Estado de uma constituição
escrita, na qual ele se referia de maneira pormenorizada aos direitos e deveres
do chefe do Estado e dos seus súditos, bem como determinava as condições de
administração de tal organização. Este documento chegou até nós. Nele o
Profeta Muhammad Além disso foram celebrados tratados de aliança e de paz com muitas das tribos árabes. Algumas vezes eram redigias duas cópias de cada tratado, ficando cada parte com uma. Patentes de registro foram concedidas, estendendo proteção aos chefes que se submetiam, confirmando os direitos anteriores deles à terra, água, etc. Com a expansão do Estado Islâmico, houve naturalmente um certo volume de correspondência com os governantes de províncias para comunicar novas leis e outras determinações administrativas, para revisão de determinadas decisões judiciais e administrativas dos funcionários, para responder às consultas desses funcionários feitas ao governo central, e com referência a impostos, etc. Havia também cartas missionárias enviadas a governantes diversos, convidando-os a converterem-se ao Islam, tais como as que foram enviadas aos chefes de tribos da Arábia, aos imperadores de Bizâncio e Irã, ao Rei Négus da Abissínia e outros. Para cada expedição militar convocaram-se voluntários, mantendo-se listagens escritas destes. Os despojos tomados eram cuidadosamente relacionados para permitir sua distribuição em proporções iguais entre os componentes da força expedicionária. A liberação de escravos também
parece ter sido feita por documentos escritos. Pelo menos dois documentos desse
tipo, expedidos pelo próprio Profeta Muhammad Também podemos mencionar o caso
de uma tradução do Alcorão. O Profeta Muhammad Coletâneas que incorporam esse
tipo de documentos do tempo do Profeta Muhammad Ao chegar em Madina, seu primeiro ato foi o de construir uma mesquita, uma parte da qual foi reservada para servir de escola. Esta parte era a famosa ''Suffa'', que servia de dormitório à noite e como sala de aula durante o dia, para todos quantos quisessem aproveitar disso. No ano 2 da Hégira, quando o exército pagão de Makkah foi dispersado em Badr, sendo capturados muitos prisioneiros, o Profeta mandou que todos os prisioneiros que soubessem ler e escrever, pagassem seu resgate ensinando, cada um, a dez meninos muçulmanos. O Alcorão também ordena que quaisquer transações de crédito comercial sejam validados por documentos escritos, com a assinatura de duas testemunhas. Este e outros requisitos contribuíram para o rápido aumento de alfabetização entre os muçulmanos. Não é portanto surpreendente que os companheiros do Profeta aumentassem o interesse em preservar em forma escrita os pronunciamentos de seu guia supremo. Como acontece com todo o recém e sinceramente convertido, a devoção e o entusiasmo deles eram imensos. Eis um exemplo típico disso:
Umar relata que ao chegar em Madina, tornou-se irmão contratual de um muçulmano
nativo ao tempo da famosa fraternização determinada pelo Profeta Muhammad Compilações do Tempo do Profeta Muhammad Conta-nos At-Tirmidhi: Certo
dia, um ansári (muçulmano nativo de Madina), queixou-se ao Profeta Muhammad Inúmeras fontes (At-Tirmidhi,
Abu-Dawud etc.), contam que Abdullah Ibn 'Amr Ibn al-'As, um jovem de Makkah,
tinha o hábito de escrever tudo que o Profeta Muhammad Este respondeu: "Sim" Abdullah persistiu: ''Mesmo quando estais feliz e satisfeito e mesmo quando estiverdes aborrecido?'' O Profeta disse: "É claro, por Deus! Tudo que sai desta boca jamais é falso." Abdullah deu à sua compilação o nome de "Sahifa Sadika" (O Livro da Verdade). Durante várias gerações este livro era ensinado e transmitido como um trabalho independente; mais tarde foi incorporado às coleções maiores das tradições compiladas por Ibn Hanbal e outros. Conta-nos Ad-Darimi: ''Certa vez Abdullah estava com seus pupilos quando alguém perguntou: Qual das duas cidades seria capturada primeiro pelos muçulmanos, Roma ou Constantinopla? Abdullah fez com que lhe trouxessem uma caixa antiga da qual tirou um livro, e após procurar entre suas páginas, leu o seguinte: "Certo dia quando nós estávamos em torno do Profeta para escrever o que ele dizia, alguém perguntou a ele: Qual das duas cidades será capturada primeiro, Roma ou Constantinopla? E ele respondeu: A cidade dos descendentes de Heráclius." Esta história prova categoricamente que os companheiros do Profeta se interessavam, mesmo durante sua vida, em escrever todas as suas palavras. Mais importante é o caso de
Annas. Um dos raros nativos de Madina que sabia ler e escrever quando contava
apenas dez anos de idade; seus devotados pais o apresentaram ao Profeta Muhammad ''Se insistíssemos e em outra versão: se fôssemos muitos, Annas desfolhava suas folhas de documentos e dizia: Estes são ditos do Profeta, que eu anotei e depois li para ele corrigir qualquer erro." Esta importante afirmação não
só fala de que se compilava mesmo durante a vida do Profeta Muhammad Compilações do Tempo dos Companheiros do Profeta Era natural que o interesse pela
biografia do Profeta Muhammad Quando o Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), nomeou Amr Ibn Hazm como governador do Iêmen, deu-lhe instruções escritas sobre os deveres administrativos que ele tinha de desempenhar. Amr preservou esse documento, e também procurou as cópias de vinte e um outros documentos emanados do Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), endereçados às tribos dos Juhaina, Judham, Taiy, Saquif, etc., compilando-os na forma de um compêndio de documentos oficiais. Este trabalho sobrevive até os nossos tempos. No Sahih de Al-Bukhari,
lemos que Jábir Ibn Abdullah compilou um opúsculo sobre a peregrinação a
Makka, no qual nos proporciona um relato da última peregrinação feita pelo
Profeta Muhammad Dois outros companheiros do Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), Samura Ibn Jundab e Sa'd Ibn Ubada também teriam compilado suas memórias, para patrimônio de seus filhos. Ibn Hajar, falando delas acrescenta que a obra de Samura era grande e volumosa. Ibn Abbas, que era muito jovem ao tempo do passamento do Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), aprendeu muita coisa dos seus companheiros mais velhos, e compilou inúmeras obras com o material assim acumulado. Dizem os cronistas: ''Quando ele faleceu, deixou escritos suficientes para carregar um camelo.'' Al-Bukhari narra que Abdullah Ibn Abi Awfa, Abu Bakr e Al-Mughirah Ibn Chu'ba ensinavam as tradições por correspondência: Se alguém desejasse informações sobre o Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), eles respondiam por escrito. Tomavam até a iniciativa de comunicar a funcionários, por exemplo, as decisões do Profeta referentes a problemas específicos da ocasião. Mais esclarecedor é o seguinte relato, preservado por numerosas fontes. Certo dia, um aluno de Abu Huraira disse assim: ''Vós me dissestes isto assim e assim. Abu Huraira que já devia estar bastante idoso, com a memória enfraquecida, recusava-se a acreditar na tradição, porém quando seu aluno insistia de que a aprendera daquela forma dele mesmo, Abu Huraira respondia. Se foi comigo que a aprendeste, deve estar nos meus escritos. Tomou-o pela mão e conduziu-o à sua casa, mostrando-lhe "muitos livros sobre as tradições do Profeta", para que procurasse até achar a tradição em questão. Uma vez encontrada, ele disse ao aluno: "Eu não te disse que se houveras aprendido de mim, terias de encontrá-la nos meus escritos?" Deve-se observar que neste
relato usa-se a expressão "muitos livros". Abu Huraira morreu no ano
59 da Hégira. A um dos seus discípulos, Hammam Ibn Munabbih, ele ditou (ou
talvez tenha dado já escrito) um opúsculo de 138 tradições sobre o Profeta
Muhammad Relata-nos Adh-Dhahabi: O Califa Abu Bakr compilou um trabalho no qual havia 500 tradições do Profeta, entregando-o à sua filha Aicha. Na manhã seguinte ele o retomou dela e o destruiu, dizendo: "Eu escrevi o que entendi; é no entanto possível que deve ter havido coisas aí que não correspondiam textualmente com o que o Profeta efetivamente disse." Quanto a Umar, verificamos do testemunho de Ma'mar Ibn Rachid, que, durante seu califado, Umar consultou certa vez os companheiros do Profeta sobre a conveniência de codificar as tradições. Todos apoiaram a idéia. Mas Umar continuou a hesitar e orar a Deus por um mês inteiro pedindo orientação e esclarecimento. Finalmente, ele decidiu não empreender a tarefa, e disse: "Outros povos tem negligenciado os livros Divinos e se concentrado somente na conduta dos seus profetas; não quero tornar possível a ocorrência de confusões entre o Sagrado Alcorão e as tradições do Profeta." Interdição do Registro Escrito das Tradições Os dois últimos relatos,
referentes a Abu Bakr e a Umar, são importantes uma vez que explicam a
verdadeira implicação da tradição que nos transmite ter o Profeta proibido
de registrar por escrito os seus ditos. Até onde sabemos, os únicos narradores
que se diz terem relatado a ordem do Profeta Muhammad Nem o contexto nem a ocasião em que essa determinação se deu são conhecidos. Deve se observar que Abu Sa'id al Khudri e Zaid Ibn Sábit estavam no grupo de jovens companheiros do Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), pois no ano 5 da Hégira, não deviam ter mais que uns 15 anos de idade. Por mais inteligentes que tenham sido, é admissível que o Profeta tenha lhes proibido de anotar suas palestras nos primeiros anos. Quanto a Abu Huraira, vimos que ele próprio havia compilado "muitos livros" sobre as tradições. Ele é historicamente reconhecido como tendo sido um homem muito piedoso, puritano e rígido; e é impensável que um homem com tal caráter tivesse violado um mandamento específico do Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), se não tivesse recebido do próprio Profeta a revogação de tal proibição. Abu Huraira chegou do Iêmen para converter-se ao Islam no ano 7 da Hégira. É possível que nos primeiros dias após sua conversão, tenha o Profeta ordenado a ele que não escrevesse nada senão do Alcorão; e que, posteriormente, tendo ele assimilado o Alcorão suficientemente para distinguir entre o Livro Divino e as tradições, tenha deixado de existir a razão da interdição. Fato importante é que também se afirma que Ibn 'Abbas teria dito, como sendo sua opinião pessoal, sem referências ao Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), que as tradições não deviam ser compiladas por escrito. Mesmo assim, como temos visto, sua prolixidade sobrepujava a dos companheiros do Profeta que haviam consignado as tradições em forma escrita. A contradição entre a palavra e a ação destes que, nem por isso são menos conhecidos por sua devoção e obediência escrupulosa das determinações do Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), confirma nossa suposição de que a ressalva contra o registro escrito das tradições devia estar ligada a um contexto que nos foi passado nas narrativas, e que era de âmbito limitado. Devemos, portanto, procurar conciliar as duas ordens contraditórias do Profeta ao invés de rejeitar ambas. Três explicações possíveis vêm à mente: (1) Tal interdição pode ter sido individual, e se referia àqueles que só recentemente tinham aprendido a arte de escrever, ou aqueles que haviam se convertido ao Islam há pouco e que ainda estariam longe de serem capazes de distinguir entre o Alcorão e as tradições. A interdição viria a ser suspensa mais tarde ao se constatar terem adquirido um grau de capacidade a altura. (2) Essa interdição poderia ter sido pretendida a evitar que se copiasse as tradições nas mesmas folhas em que viessem a ser escritos trechos do Alcorão, com o objetivo de evitar o surgimento de eventuais confusões entre o texto e a exegese. Abu Sa'id al-Khudri se refere a isto, e temos também a ressalva formal do Califa Ômar contra esse modo de preservar as tradições. (3) Ela pode ter se relacionado com algumas palestras em especial do Profeta, como por exemplo, a ocasião em que ele vaticinou com referência ao futuro do Islam e as suas imensas conquistas espirituais e políticas; a interdição seria então motivada pelo desejo de que a crença na predestinação não levasse certas pessoas a abandonar a devoção espiritual. Outras explicações ainda poderiam ser acrescentadas, mas estas devem ser suficientes por ora. Nos Séculos Seguintes No princípio, as compilações das tradições eram breves e individuais, cada Companheiro anotando as suas próprias rememorações. Na segunda geração, quando estudantes passaram a assistir a palestras de mais de um mestre, tornou-se possível reunir diversas tais memórias em volumes maiores, anotando-se cuidadosamente todas as diferentes fontes. Algumas gerações mais tarde,
foram colecionadas todas as memórias dos Companheiros de Profeta Muhammad Como no caso do Alcorão, tornou-se compulsório decorar cada uma das tradições; e para ajudar a rememoração, utilizava-se os textos escritos. Este método duplo de apresentação e segurança foi rigorosamente observado por alguns, e menos por outros. Daí a relativa importância dos
diferentes mestres e sua confiabilidade. Não muito após o passamento do
Profeta Muhammad Al-Bukhari, por exemplo, diz: "Meu mestre Ibn Hanbal disse: Ouvi meu mestre 'Abd ar-Razzak dizendo- Meu Mestre Ma'mar Ibn Rachid me disse: Ouvi meu mestre Hamman Ibn Munabbih dizer-me: Meu mestre Abu-Huraira me disse: Escutei o Profeta dizer isto assim, assim. Para um único relato de algumas
palavras sobre o Profeta Muhammad Encontramos o relato dessa
corrente em todas essas obras citadas as quais felizmente se preservaram até o
nosso tempo nessas palavras exatamente. Diante da presença de uma sucessão de
tantas fontes autorizadas, seria insensato presumir e uma calúnia indigna
sugerir, por exemplo, que al-Bukhari tivesse inventado a narração,
atribuindo-a ao Profeta, ou de ter fabricado ele próprio a corrente de
narradores, ou de simplesmente ter recolhido o folclore ou ''disse me disse''
popular de sua época e o ter atribuído ao Profeta Muhammad Conclusão É por esse método de salvaguarda dupla, ou seja, decorando o conteúdo, preservando-o ao mesmo tempo, por escrito sistema pelo qual cada método ajuda o outro a tomar a integridade dos relatos dupla mente certo que os ensinamentos religiosos do Islam tem sido .preservados desde o princípio e até os nossos dias. Isto é verdadeiro tanto em relação
ao Alcorão quanto às tradições que consistem das memórias dos companheiros
do Profeta Muhammad É preciso lembrar-se que também como fundador de uma religião, o Profeta Muhammad(que a Paz e a Bênção de Deus esteja sobre ele), teve um tremendo êxito. Aliás, no ano 10 da Hégira, foi dado a ele falar à assembléia em Arafat, Makka, de cerca 140.000 muçulmanos que ali haviam-se reunido em peregrinação (sem contar muitos outros que não haviam ido a Makka naquele ano). Os biógrafos dos companheiros
do Profeta afirmam que o número de companheiros do Profeta Muhammad Naturalmente, há que haver repetições, mas é exatamente a multiplicidade de fontes relatando o mesmo acontecimento que expressa a credibilidade ao fato. Possuímos cerca de dez mil relatos (excluindo as repetições contidas nas tradições sobre a vida do Profeta do Islam), e esses relatos se referem a todos os aspectos da vida, incluindo a orientação dada por ele aos seus discípulos em assuntos tanto espirituais como temporais. |