Quando e como Lutar

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Tópico: Ética & Valores

Nome do Consultante: Michel – Bélgica

 Questão: Eu não concordo com você quando diz: “a sabedoria da diversidade de religiões é colocada claramente” no Alcorão 5:48. (N do T: referência a uma fatwa anterior:  wisdom of diversity of religions ) Porque no Alcorão também diz na Surah 2, versículo 191:

 “Matai-os onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos.”

 E na Surah 9, versículo 5:

 “Mas quando os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; (…)”

 Por favor comente sobre isso.

 Nome do consultor: Shahual Hameed

 Que a paz esteja contigo, Michel.

 Obrigada pelo seu e-mail.

 Sua pergunta é sobre uma “aparente” contradição no Alcorão: que em um trecho é aprovada a diversidade religiosa e em outros pontos é pedido aos seus seguidores para matarem os que crêem em outras religiões. Você começa com uma referência à Surah 5, versículo 48, em que se lê o seguinte:

 “Em verdade, revelamos-te o Livro corroborante e preservador dos anteriores. Julga-os, pois, conforme o que Deus revelou e não sigas os seus caprichos, desviando-te da verdade que te chegou. A cada um de vós temos ditado uma lei e uma norma; e se Deus quisesse, teria feito de vós uma só nação; porém, fez-vos como sois, para testar-vos quanto àquilo que vos concedeu. Emulai-vos, pois, na benevolência, porque todos vós retornareis a Deus. O Qual vos inteirará das vossas divergências.”

 Existe pouco espaço para dúvida aqui: o comando é para “competirmos”  (“Emular”: competir com; igualar-se com; seguir o exemplo de; esforçar-se para alcançar uma meta comum.) na benevolência e nas virtudes e não é feita nenhuma menção ao combater o outro!

 Para uma discussão proveitosa do tópico sugerido, será útil considerarmos alguns princípios gerais do Islã.

 Primeiro, entenda a postura muçulmana de que o Alcorão é a orientação de Deus revelada para Muhammad nos vários contextos dos eventos de sua vida. Muitos dos versículos são compreensíveis de imediato; mas existem alguns cujo significado só pode ser entendido sob a luz dos fatos daquele momento, dentro do seu contexto à época em que foram revelados. Como no caso dos versículos que você citou, parece haver uma contradição; mas uma vez que os versículos são colocados em seu contexto e seu momento histórico é compreendido, tornam-se claros e seu sentido é revelado.

 Alguns dos princípios sublinhados no Alcorão e relevantes à nossa discussão sobre liberdade religiosa e diversidade são os seguintes:

  • Só existe um Deus, como o Alcorão afirma na Surah 112 (Al ‘Ikhlass”):

(Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso)

1.Dize: Ele é Deus, o Único!

2.Deus! O Absoluto!

3.Jamais gerou ou foi gerado!

4.E ninguém é comparável a Ele!”

  • A humanidade é uma, como o Alcorão diz na Surah 49, versículo 13:

 “Oh humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é sapientíssimo e está bem inteirado.” 

  • Os Muçulmanos crêem em todos os profetas e suas escrituras, como o alcorão coloca na surah 2, versículo 136:

“Dizei: cremos em Deus, no que nos tem sido revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacó e às tribos; no que foi concedido a Moisés e a Jesus e no que foi dado aos profetas por seu Senhor; não fazemos distinção alguma entre eles,e nos submetemos a Ele.”

  • Deus não comete qualquer injustiça, como diz o Alcorão na Surah 36, versículo 54:

“Hoje nenhuma alma será defraudada, nem sereis retribuídos, senão pelo que houverdes feito.”

E também na Surah 45, versículo 22:

“Deus criou os céus e a terra com prudência, para que toda alma seja recompensada segundo o que tiver feito, e ninguém será defraudado.”

  • Deus permite o combate nos casos em que o povo for “injustiçado” , como diz a Surah 22. versículo 39:

“Ele permitiu (o combate) aos que foram atacados; em verdade, deus é Poderoso para socorre-los.”

  • O uso da força é excluído quanto à religião, como vemos no Alcorão, Surah 2, versículo 256:

“Não há imposição quanto à religião, porque já se destacou a verdade do erro (…)”

E também na Surah 18, versículo 29:

“Dize-lhes: A verdade emana do vosso senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser. (…)

  • A melhor maneira de se opor ao  Mal é com o Bem, e não com o mesmo Mal, como na Surah 41, versículo 34:

 “Jamais poderão equiparar-se a bondade e a maldade! Retribui (Oh Muhammad) o mal da melhor forma possível, e eis que aquele que nutria inimizade por ti converter-se-á em íntimo amigo!”

Sob a luz dos versículos acima, podemos avançar em nosso tópico. Você se referiu ao versículo 191 na Surah 2 e ao versículo 5 na Surah 9. De fato, para o pleno entendimento do versículo por você citado, nós temos que dar uma olhada no versículo anterior, (Surah2, versículo 190):

 “Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis a agressão, porque Deus não estima os agressores.” 

Fica claro que a permissão para a luta é dada aqui aos Muçulmanos para se defenderem; e mesmo então eles são alertados para não ultrapassarem limites.

No versículo 191 a razão para a luta é explicada claramente, pelas palavras: “expulsai-os de onde vos expulsaram” e  “a perseguição é mais grave do que o homicídio”. Quando você cita apenas o segundo versículo, o comando de Deus parece injusto, o que não é.

Vejamos agora o contexto em que tais versículos foram revelados:

Durante os primeiros treze anos de sua missão profética, Muhammad e seus seguidores foram sujeitos à perseguição mais brutal por parte da tribo Quraish de Mecca. Eles foram inclusive obrigados a viver em um vale adjacente à Mecca, submetidos a uma forma muito severa de boicote. Em seguida foram expulsos de seus lares, todas as suas propriedades confiscadas e muitos dentre eles foram torturados e mortos; e teriam sido massacrados se não tivessem escapado para Medinah.

Em Medinah, os muçulmanos foram recebidos com todas as honras pela população da cidade, e eventualmente Muhammad foi aceito como líder das comunidades locais. Os Mequenses ficaram perturbados ao saberem da popularidade do Profeta em Medinah; eles esperavam uma guerra vinda de Medinah como vingança. Temendo isso, eles queriam destruir Muhammad e “seu” Islam!

Houve alguns eventos que intensificaram tal temor; os quais incitaram os mequenses a reunirem um exército poderoso e marcharem para Medinah. Nesse momento, Muhammad e seus seguidores poderiam ter ido para alguma outra cidade, escapando do exército de Mecca; pois os muçulmanos contavam um terço do número de combatentes do exército que marchava contra eles. Também estavam pobremente armados para a guerra. Mas foi aí então que o comando de Deus veio para Muhammad permanecer firme e lutar. Foi nesse contexto que a permissão para o combate foi dada.

Essa batalha teve lugar em Badr, e foi quando os Muçulmanos, com 313 combatentes e pouquíssimo equipamento – para os padrões da época – , derrotaram um exército bem armado de mil combatentes de Mecca. Esta foi uma batalha entre as forças da verdade e as da falsidade; e a verdade venceu. Após essa batalha, os Mequenses não permaneceram inativos; estavam com o orgulho ferido, e partiram para muitas outras batalhas contra os Muçulmanos.

Enquanto isso, os Muçulmanos cresciam em número e em força em Medinah. Sob a orientação divina, o Profeta (SAAWS) foi capaz de formar uma sociedade e um governo em Medinah. Sua constituição era o Alcorão; suas leis derivavam-se do Alcorão. Era um verdadeiro governo Islâmico, que precisava englobar também aqueles que não se tornaram Muçulmanos. Aqueles que não se converteram não foram compelidos a faze-lo; mas, naturalmente, lhes era pedido que obedecessem às leis do governo.

 A Surah 9 discute alguns dos problemas enfrentados pelos Muçulmanos, como comunidade política. Uma das questões principais era sobre o que os Muçulmanos deveriam fazer se os inimigos rompessem os tratados e cometessem traição. Essa era uma referência à quebra pelos pagãos dos tratados com os Muçulmanos. Nenhuma nação pode se manter fiel a um tratado se a outra o viola intencionalmente! Isso é evidente no versículo 5 da Surah 9:

“Mas quando os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis: capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo." 

A primeira parte do versículo se refere ao costume honrado pelos Árabes de dar um período de aviso e espera aos ofensores, após uma clara violação. Ou seja, aos ofensores era concedido um período de quatro meses para repararem o dano causado ou entrarem em acordo de paz. Mas, se nada fosse resolvido após o término desses meses proibidos, o que fazer? Isso é o que o versículo acima diz. O combate deve prosseguir até acontecerem uma das duas coisas seguintes: ou o inimigo é vencido pela luta incansável (é isso o que significa “matai os idólatras, onde quer que os acheis: capturai-os, acossai-os e espreitai-os”), ou se arrepende.

Este é um daqueles versículos do Alcorão que é mal-interpretado se for citado fora de contexto. Precisamos compreender que essa luta era contra um povo: os pagãos que forçaram o Profeta e seus companheiros  a deixarem, não apenas seus lares, mas todas as suas propriedades e mesmo abandonarem Mecca por Medinah. Uma vez que os Muçulmanos estavam organizados em uma comunidade , as regras seguidas pelos Muçulmanos  estavam claramente estabelecidas, inclusive quanto à guerra.

Este versículo é particularmente sobre o estabelecimento da lei. Estando o Governo Islâmico firmado em Medinah e seus arredores, era apenas dever dos cidadãos seguirem a lei local. Os Muçulmanos tinham que pagar zakah, de acordo com a shari’a, enquanto os não-muçulmanos pagavam a jizya – uma taxa que substituía o zakah. Negar-se a pagar essa taxa é um desafio aberto ao governo e será punido segundo determinadas etapas. Esse é um princípio seguido em todos os governos atuais. A escolha é entre tornar-se um Muçulmano e obedecer aos regulamentos Islâmicos, ou continuar como um não-Muçulmano, pagar jizya e submeter-se ao governo.

Os pontos seguintes merecem destaque:

Como é afirmado no Alcorão 5:48, a diversidade religiosa é tolerada, mas não recomendada. Isso porque o chamado de Allah é para que todos os humanos se unam na obediência a Ele, em todos os caminhos da vida. Mas nenhuma força deve ser usada em assuntos de crença ou prática religiosa.

Deus não pede aos Muçulmanos que combatam os incrédulos pela razão deles serem incrédulos. Mas porque eles eram os perseguidores ou agressores é que combate-los se tornou necessário. Também é colocado claramente que a permissão para combate vai até o momento em que cessam as hostilidades.

Assim, fica evidente que não há contradição no Alcorão quanto à diversidade religiosa.

Que Allah nos guie na compreensão da verdade e nos dê sabedoria.

Obs. da tradutora: As citações de versículos Corânicos são copiadas do trabalho do Prof. Samir El Hayek, “O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado” 11ª edição.

Tradução: Irmã Mariam Polga