O Equilíbrio na Vida do Muçulmano

É qualidade e particularidade desta orientação divina: o equilíbrio... *Outros dizem: Ó Senhor nosso, concede-nos a graça neste mundo e no vida eterna, e preserva-nos do tormento infernal! Estes sim, lograrão a porção que tiverem merecido, porque Allah é Rápido em acertar contas* (2:201-202)

 E disse o profeta Muhammad: "Não é o melhor entre vós aquele que deixa a sua vida mundana pela eterna, e nem quem deixa a vida eterna pela mundana. Porém, a vida mundana é o caminho para a eterna, e não sejais um "peso" para as pessoas".

 O Islam é nossa religião, nosso sistema de vida, uma doutrina fácil e flexível... * Allah vos deseja a comodidade e não a dificuldade...* (2:185), * ...e não vos impôs dificuldade alguma quanto à religião...* (22:78). Uma orientação sem exagero e ao mesmo tempo, sem negligência. Este é o entendimento correto desta orientação que orienta o homem a seguir a revelação de Deus, que já é equilibrada e flexível, não necessitando alteração alguma para os dias atuais ou futuros, pois Allah bem conhece o ser humano que viveu ontem, ou vive hoje, ou viverá amanhã, e lhe revelou uma orientação que atende às suas necessidades...*Não conhece Ele o que criou, sendo Ele o Onisciente, o Sutilíssimo?* (67:14).

A falta de entendimento deste equilíbrio fez muitas pessoas deixarem a religião de Deus para seguir seus desejos pessoais e fez outras se absterem totalmente da vida material e se dedicarem à vida espiritual, esquecendo suas necessidades físicas e materiais. Todos estes dois grupos não entenderam que o Islam que Deus nos concedeu é um sistema de vida espiritual, material, familiar, social, moral, político, econômico, um sistema geral, no qual Deus estabelece as diretrizes da vida do ser humano. E quando este ser deixa esta orientação perde-se e vaga pelo mundo a procurar respostas para as indagações que tem no seu íntimo, e que as teria respondido se tivesse escutado e respeitado as orientações divinas.

A virtude e felicidade de quem é equilibrado ( da maneira que Deus estabeleceu este equilíbrio, não à minha maneira) são expostos nos textos acima e em outras passagens da vida do profeta Muhammad...

Abdullah ibn Amr inb al Ass relata que o profeta foi informado que ele (Abdullah ibn Amr) prometeu jejuar todos os dias da sua vida e rezar todas as noites. Então o profeta disse-lhe: " Você é quem disse isso? ". Ibn Amr disse: " Eu mesmo o disse, meu pai é o senhor e minha mãe ó mensageiro de Allah". O mensageiro de Deus lhe aconselhou e disse: "Você não será capaz de cumprir isso, mas jejue alguns dias, não jejue outros, durma e reze. Jejue três dias em cada mês, pois a boa ação é multiplicada por dez e, assim você terá a recompensa de ter jejuado o ano inteiro". Ibn Amr diz: Eu disse: "Eu posso melhor que isso". Respondeu (o profeta): "Então jejue um dia e quebre dois".  Eu disse: "Eu posso melhor que isso". Respondeu: " Então jejue um dia sim um dia não, pois este é o jejum de Davi e é o melhor jejum". Eu disse: "Eu posso melhor que isso". Respondeu: "Não há melhor que isso". Depois Ibn Amr finaliza e diz: "Eu ter aceito o que os três dias que o mensageiro de Allah citou inicialmente seria mais querido para mim que minha família e meus bens". Em outros relatos é citado que o profeta disse à ele: "Não o faça, mas jejue e desjejue, durma e levante-se (para rezar), pois seu corpo tem direito sobre você, assim também seus olhos, sua esposa, seus parentes, todos têm direito, e basta que jejue três..." E Ibn Amr dizia depois de velho: "Quem dera tivesse aceito a autorização (facilitamento) do mensageiro de Allah".

 Hanzhalah, outro ilustre companheiro do profeta Muhammad, relata que encontrou-se com Abu Bakr que lhe perguntou: "Como vai Hanzhalah?". "Hanzhalah tornou-se um hipócrita!!", respondeu Abu Bakr espantado, disse: "Louvado seja Allah, o que você está a dizer?!". Hanzhalah completou: "Estamos com o mensageiro de Deus, que nos lembra do paraíso e do inferno como se tivéssemos os vendo com nossos próprios olhos, porém quando saímos (do encontro com o profeta), nos ocupamos com nossas esposas, filhos, negócios, e esquecemos muito (daquilo que ouvimos)".Abu Bakr disse-lhe: "Juro que sentimos o que você sente", então foram ao encontro do profeta Muhammad e Hanzhalah abriu o assunto e disse: "Hanzhalah tornou-se um hipócrita ó mensageiro de Allah!!"."O que ocorre?", perguntou o profeta e Hanzhalah citou o mesmo que citou a Abu Bakr. E o profeta concluiu: "Juro por aquele em cujas mãos está a minha alma, se vocês continuassem como estavam quando se encontravam comigo e na lembrança de Deus, os anjos iriam os cumprimentar em seus leitos e caminhos, porém, ó Hanzhalah, uma hora e uma hora". (3) Ou seja, uma hora para alimentar a alma com adoração a Deus e Seu conhecimento e uma hora para a vida mundana, para as necessidades materiais. Assim, o profeta ensinou-nos a unir entre os bens dessa vida e da outra.

 É de extremo perigo não entender o equilíbrio que Deus estabeleceu em Sua doutrina, um perigo que levará quem exagera ou negligencia na religião a resultados indesejáveis, pois não estará dando à sua alma, ao seu corpo e à sua mente aquilo que cada um necessita.

Estes que não entenderam este nobre equilíbrio escutam Deus dizer: * Sabei que a vida terrena é apenas jogo e diversão, enfeite, mútua vanglória e rivalidade, com respeito à multiplicação de bens e filhos...* (57:20), e escuta o incentivo do Islam na adoração... *E adora o teu Senhor até que te chegue a hora da certeza * (15:99). Imagina assim, que o muçulmano é aquele que se abstém desta vida e ocupa todo o seu tempo na contemplação e adoração à Deus, não ocupa-se senão com a oração, o jejum, o zhikr e, assim sendo, não tem nenhum outro tipo de atividade na sociedade, não trabalha, não é ativo na sociedade, mas suas benfeitorias se limitam a si próprio. Este é um erro no entendimento do Islam, do qual originou-se o desvio na conduta na realidade da vida.

Outros ouvem o Islam orientando o ser humano a trabalhar... *Ele foi quem vos fez a terra manejável. Percorrei-a, pois, por todos os seus quadrantes e desfrutai das Suas mercês... * (67:15). Ouvem o profeta rogando a Deus que o livre da pobreza: " Ó Allah,amparo-me em ti contra a miséria e a incredulidade". Ouvem o profeta também dizer: "Bendito é o lucro benéfico para o servo benfeitor". Ao ouvirem tudo isso, fazem do trabalho e comércio todas as suas vidas, noite e dia, o pensamento está ligado ao dinheiro e à matéria, e nas profundezas deste mergulho na vida material, esquecem daquilo que Deus estabeleceu como obrigação perante Ele, como a oração, o agradecer... , esquecem do direito da família e esquecem tudo, como se para o comércio e para adorar o dinheiro fomos criados!!

Outros que não entenderam e entraram em desequilíbrio, ouvem o profeta dizer: "O crente forte é melhor e mais querido para Deus que o crente fraco..." Ouviram e correram para transformar suas vidas em esporte e exercícios, esquecendo-se das outras obrigações que abrangem a vida do ser humano, esquecendo-se, até mesmo, de completar este mesmo dito do profeta que mostra a força representada em tudo que é benéfico, não somente a força física e continua dizendo:"...Esteja atento ao que te beneficia...".

Outros ouvem Deus dizer no Alcorão Sagrado: *Dize-lhes: Quem proibiu os adornos de Allah e os bons alimentos que Ele preparou para Seus servos?...* (7:32) e dizem: " Nós queremos aproveitar aquilo que Deus criou para nós". Nada os impede de aproveitar os prazeres da vida, até chegar ao ponto de não conseguirem abandonar o vício do qual se tornaram escravos por um só instante. Erro no entendimento, do qual originou-se o desvio e fez este ser humano entrar em colapso e desequilíbrio. Por isso, ao vermos algumas pessoas felizes em suas diversões, sejam lícitos ou ilícitos, que não passe por nossa mente que esta é a felicidade que nós desejamos. A felicidade está no equilíbrio e na observação das orientações de Deus. Está na dedicação em todas as partes da vida, como Deus nos orientou e nos ordenou. 

Deus mal fala daqueles que fizeram desta vida material seu único objetivo e meta e os comparou aos animais que nada mais fazem além de comer, beber e dormir... *..quanto aos incrédulos, quem comem como come o gado, o fogo lhes servirá de morada* (47:12)... *... Aproveitastes e gozastes os vossos deleites na vida terrena. Hoje (no dia do juízo e quando colocados perante o fogo), porém, sereis retribuídos como o afrontoso castigo por vossa arrogância e depravação na terra* (46:20). Equilibrando o entendimento de quem tem a vida futura como objetivo final, Deus também fala daqueles que inventaram a vida monástica e a dedicação total à vida espiritual, abstendo-se do mundo... *Seguem a vida monástica, que inventaram, mas que não lhes prescrevemos, (lhes prescrevemos) apenas comprazerem a Allah, porém, não o observaram devidamente...* (57:27).

Todas estas palavras nos orientam a fazermos parte da nação de centro que Deus denominou ser a nação islâmica... *E deste modo, constituímos-vos em uma nação de centro, para que sejais testemunhas da humanidade, assim como o mensageiro o será para vós* (2:143). Esta nação é o centro e o equilíbrio entre o exagero dos exagerados e a negligência dos negligentes, é o centro e o equilíbrio em tudo, por isso é a nação testemunha sobre as nações:

1. Equilíbrio na fé: Não exagera na observação da religião de Deus, mas também não é negligente ao ponto de descumpri-la. Não aceita abandonar a crença saudável em Deus, nos seus anjos, nos livros, nos mensageiros, no dia do juízo e no pré-destino.

2. Equilíbrio na prática: Traduz a sua fé na prática. Não exagera em suas ações ao ponto de abandonar e menosprezar aquilo que Deus permitiu para os seus servos, mas também não se afoga nos prazeres mundanos como se esta fosse toda a nossa vida, de modo a esquecer a observação dos limites de Deus. Tudo sob medida, bem pesado e equilibrado.

3. Equilíbrio na conduta. A religião não faz prevalecer o benefício do indivíduo sobre a sociedade, ocasionando a insensatez e a desobediência à Deus ao lembrar somente de se ego e querer somente o seu benefício sem lembrar do benefício geral da nação. E também não faz prevalecer o direito e benefício da sociedade sobre o individuo, fazendo-o perder seus direitos, transformando-o num ser sem vontade própria, sem liberdade e sem uma vida humana saudável.

4. Equilíbrio na disciplina e observação das leis de Deus. Deus lhe compôs de corpo e alma, por isso concedeu os fatores que servem este corpo e suprem suas necessidades, tudo com limites estabelecidos por Deus, para que esta nação de centro e equilíbrio seja a nação da lei e da ordem, da moral e dos princípios,e se movimente neste mundo criado por Deus para fazer a Sua doutrina orientar o homem. Esta é a nação de centro e equilíbrio porque é a nação que tem  a religião de Deus como diretriz na sua vida.