Conceito Islâmico da Vida

 

A vitalidade de uma sociedade, povo ou civilização, depende sobremaneira da filosofia de vida concebida e praticada. No seu estado natural, o homem não pensa em nada além do seu interesse particular, e somente depois desse, no dos seus parentes mais próximos.

 

Entretanto, tem havido em todas as épocas, grupos humanos que se destacaram de modo especial. Quando estudamos os traços e características de uma vintena de civilizações, e talvez estejamos agora no amanhecer de mais uma constatamos que mesmo tendo se destacado determinado grupo entre outros como porta-estandarte de uma determinada época, isto não significa necessariamente que os demais grupos contemporâneos vivessem em estado de primitiva selvageria.

 

Há, pelo contrário, uma relativa predominância de uma sobre as outras na escada de graduação. Quando os fenícios, por exemplo, surgiram em cena e desenvolveram uma brilhante civilização, diversos outros povos contemporâneos eram talvez tão civilizados quanto eles, faltando-lhes apenas a ocasião e um campo adequado para o desenvolvimento de suas atividades.

 

Na época Árabe-Islâmica, os gregos, os romanos, os chineses, os hindus e outros, possuíam todas as características de um povo civilizado; no entanto não ascenderam às alturas de porta-estandartes da civilização de sua época. Em nossos tempos, se os e.u.a. e a Rússia formam a vanguarda com seu poderio nuclear e outras pretensões, os ingleses, franceses e alemães seguem-nos bem de perto. Não obstante o progresso de alguns, existem ainda e ao mesmo tempo, mesmo nessa segunda metade do século XX, em algumas partes do planeta, grupos entregues à selvageria, senão ao canibalismo.

 

Surge a questão de porque a evolução de alguns é rápida enquanto a de outros, lenta? Numa época em que os gregos desfrutavam uma civilização gloriosa, porque a Europa Ocidental estava entregue à barbárie? Porque o barbarismo prevaleceu na Rússia quando os árabes alcançaram o ápice do esplendor? A mesma questão pode ser posta em relação a diversas nações em variadas épocas.

 

Será pura e simplesmente uma questão de acaso e circunstância, ou será que isto se deve ao fato de que alguns indivíduos de personalidade mais nobre e elevada nasceram em um dado grupo em detrimento de outros? É possível que haja outras explicações plausíveis também, mais complexas e dependentes de uma gama variada de causas co-existentes que governam as realizações de uns, e a frustração e até extinção de outros.

 

Há ainda uma outra questão. Após uma fase momentânea de esplendor, porque os povos recaem novamente numa obscuridade relativa quando não a um estado quase-bárbaro?

 

Propomo-nos a investigar essas questões, em relação ao Islam contemporâneo, e de debater, se possível, as chances que este tem de sobreviver. Se acreditarmos em Ibn Khaldun, aceitaremos i fator biológico como a causa essencial.

 

Ao final de uma única geração, a raça esgota sua vitalidade, e para propiciar o rejuvenescimento, é preciso que haja na família humana pelo menos uma mudança da liderança de seus negócios. A teoria racial, mesmo que seja considerada como um exagero intelectual, pode afetar civilizações étnicas e religiões intransigentes que não admitem a conversão e a miscigenação.

 

O Islam felizmente, escapa desse ciclo de decadência; pois seus seguidores são encontrados permeando todas as raças, e ele continua alcançando um maior ou menor progresso em todos os cantos do mundo. Além do mais, é unanimemente reconhecido que o Islam conseguiu eliminar completamente, dentro de sua comunidade, os preconceitos raciais, uma característica que lhe permite aceitar sem hesitação, os homens de qualquer raça para serem seus líderes e porta-estandartes.

 

A emancipação sistemática de escravos, que foi ordenada pelo Alcorão, representa outro exemplo glorioso. Para dizer uma verdade, é notável que tenham existido várias dinastias de governantes muçulmanos na história, que se originaram dos escravos recém-liberados.  

A vida e morte de uma civilização depende de maneira igual da qualidade de seus ensinamentos básicos. Se esses convidam seus acólitos a renunciar ao mundo, com certeza que obterão um grande progresso espiritual, porém, as outras partes constituintes do homem, seu corpo, suas faculdades intelectuais etc., não poderão desempenhar suas habilidades naturais e morrerão antes mesmo de florescerem.

 

Se, por outro lado, uma civilização ressalta somente os aspectos materiais da vida, o homem atingirá bastante progresso nesses aspectos em detrimento dos outros; e uma tal civilização pode até transformar-se em um bumerangue, causando a sua própria morte.  

Isto porque o materialismo freqüentemente engendra o egoísmo e a falta de respeito pelo direito de terceiros, criando inimigos, os quais ficam na expectativa de oportunidades para represálias. A conseqüência é a matança mútua. A história dos dois salteadores é bem conhecida. Eles tinham conseguido apossar-se de algum saque.

 

Um deles foi a cidade para comprar provisões enquanto o outro se encarregou de catar lenha para preparar a refeição. Entretanto, ambos resolveram intimamente livrar-se um do outro para ficar sozinho com o produto do saque. Com esse propósito, o que tinha ido fazer compras, envenenou as provisões; enquanto seu camarada ficou esperando de tocaia, matando-o no retorno da vila; porém, ao saborear da comida, ele também se reuniu ao seu companheiro no outro mundo.

 

 Há talvez um outro defeito inerente a uma civilização cujos ensinamentos não contenham uma capacidade inata de desenvolvimento e adaptação às circunstâncias por mais atraente que o seu ensinamento seja em determinada época ou ambiente, pode não servir em outro; ficar seduzido por tais ensinamentos provar-se-á, evidentemente, ser fatal para aqueles que vieram a seguir.

 

Um exemplo simples deve bastar para ilustrar esse ponto. Quando ainda não havia luz elétrica e quando os centros de certos cultos não possuíam uma receita estável, acender uma vela certamente era interpretado como um ato de devoção em tais lugares de interesse religioso.

 

Nada há que se dizer contra um ato de devoção por parte de alguém arrependido, para quem esse ato representa uma forma de expiação e anulação do crime cometido contra Deus, ou contra um homem, que seria difícil de reparar de outro modo. Mas pode o acender de velas em lugar agora amplamente iluminado com lâmpadas elétricas ser considerado mais que um inútil desperdício? Estudemos o Islam à luz de tais circunstâncias.

 

 

A Ideologia Islâmica

 

 

É bem sabido que a divisa do Islam está resumida na expressão do Alcorão "bem-estar neste mundo e bem-estar no outro". O Islam certamente não satisfará aos extremistas de qualquer escola, seja a dos ultra-espiritualistas ou a dos ultra-materialistas, porém, pode ser praticado, pela maioria preponderante da humanidade que segue um caminho intermediário, e procura desenvolver simultaneamente o corpo e a alma, criando um equilíbrio harmonioso no homem como um todo.

 

O Islam insiste na importância de ambos estes fatores constituintes do homem, e da sua inseparabilidade, de modo que um não venha a ser sacrificado em benefício do outro. Se o Islam prescreve deveres e práticas espirituais, estas contêm também vantagens materiais; da mesma forma, se o Islam autoriza um ato de utilidade secular, explica como tal ato também pode servir de fonte de satisfação espiritual. Os exemplos que seguem servirão para ilustrar este argumento.

 

É provável que concordemos que o objetivo das práticas espirituais é o de se aproximar do Ser Necessário, nosso Criador e Senhor, e de obter Seu agrado. Portanto, o homem tenta "tingir-se com as cores de Deus" como determina o Alcorão, a fim de enxergar com os olhos d'Ele, de falar a linguagem d'Ele, buscando imitá-lo conforme as humildes capacidades humanas.

 

O crente deve jejuar na ocasião determinada pelo Alcorão, porque este é um mandamento de Deus. E obedecer ao mandamento do Senhor é um ato de devoção, e além disso, o jejum enfraquece o corpo, fortificando a alma pela redução dos desejos materiais. O praticante sente uma elevação espiritual, pensa em Deus, e de tudo que Ele faz por nós, além de desfrutar ainda outros benefícios espirituais. Mas o jejum também proporciona benefícios materiais.

 

A acidez que é secretada pelas glândulas quando estamos com fome e sede, mata muitos micróbios no estômago. Desenvolvemos também a capacidade de suportar a privação em momentos de crise sem por isso perturbar o cumprimento dos nossos deveres normais.

 

Se jejuamos por razões materiais apenas, o ato não tem nenhum valor espiritual; mas se jejuamos para obter as boas graças de Deus, as vantagens materiais não são excluídas. Sem entrar num debate pormenorizado, pode se observar que outros atos e práticas do Islam também têm tal efeito duplo, espiritual e temporal.

 

Assim é na oração, seja individual ou em congregação, e é também verdadeiro na abnegação do próprio ser que se pratica na ocasião da peregrinação à casa de Deus, na prática de caridade aos pobres, e em outras práticas religiosas e espirituais além do mínimo obrigatório.

 

Se fazemos alguma coisa exclusivamente por amor a Deus, sempre terá um mérito duplo uma vantagem espiritual sem prejuízo dos benefícios materiais. Pelo contrário, se fazemos a mesma coisa com objetivo material somente, podemos  obter o propósito pretendido mas a vantagem espiritual será totalmente perdida. Recordemos o ditado célebre do Profeta Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele):

 

"Os atos devem ser julgados de acordo com as intenções.”

 

Para falar de um ato exclusivamente temporal, todos pagamos impostos ao governo. Não deveria ser motivo de espanto saber que o Islam considera este ato como um dos cinco elementos básicos da Fé, tão importante quanto a crença, a oração, o jejum e a peregrinação.

 

A significação é profunda: une-se o espiritual e o temporal em um todo único, e paga-se o imposto não como um dever ou mesmo uma obrigação social, e sim, como um dever para com Deus, de Quem nada pode ser ocultado e Que é, além do mais, capaz de nos ressuscitar e de exigir nossa prestação de contas. Pode-se compreender facilmente com que cuidado e escrúpulo, o fiel pagará o que é devido no desempenho dessa obrigação.  

Do mesmo modo, a guerra é proibida pelo Islam exceto pela causa de Deus; e não é difícil compreender que um soldado de um tal exército seja mais humano e não desejará um ganho secular pelo fato de arriscar sua vida. Pela espiritualização dos deveres temporais, o Islam não teve nenhum motivo outro que o fortalecimento do fator espiritual do homem, o qual, desse modo, ao invés de buscar ganhos materiais pelos valores materiais, aspira tão somente obter as graças de Deus.

 

O grande místico al-Ghazali não exagerou quando disse: ‘’Se alguém ora ou jejua por ostentação, está praticando o politeísmo, cultuação a si mesmo, e não de Deus, Todo-Poderoso; pelo contrário, se coabitamos com a nossa esposa, não pelo prazer carnal, mas no desempenho de um dever imposto por Deus, isto constitui um ato de devoção merecedor da graça e da recompensa de Deus.’’

 

Um corolário talvez do mesmo conceito abrangente da vida, está no fato de que o Alcorão usa freqüentemente a fórmula dupla de "creia e pratique boas ações", pela qual a mera declaração de crença, sem aplicação ou prática, não tem muito valor. O Islam insiste em um tanto quanto no outro.

 

A prática de boas ações sem a crença em Deus é, sem dúvida, preferível, para o bem da sociedade, à prática de ações ilícitas; entretanto, do ponto de vista espiritual, uma boa ação sem fé não pode propiciar a salvação na Outra Vida.

 

Como distinguir o bem do ilícito? Em primeira instância, somente a lei revelada pode servir de critério, e em último recurso, a nossa própria consciência é que deverá servir de árbitro. Quando um problema surge, podemos consultar aos textos da lei islâmica, pessoalmente se pudermos ou com a ajuda de alguém instruído, ou, se necessário, com algum dos especialistas.

 

Entretanto, um jurisconsulto só poderá responder com base nos fatos que lhe forem dados a conhecer. Se quaisquer fatos materiais forem ocultados dele, seja intencionalmente seja de outro modo, a injustiça que resultar não pode ser atribuída à lei. Podemos aqui recordar um parecer encantador do Profeta Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele); que disse certo dia:

 

"Gente! Nas queixas que vieram ter a mim, decido com base somente nos fatos que são trazidos ao meu conhecimento; se, por falta de informações completas, eu tomar uma decisão em favor de alguém que não possui nenhum direito, façam-no saber que será destinada a ele uma parte do fogo do inferno.”

 

Um axioma islâmico ressalta o mesmo ao dizer: "Consulte a sua consciência até mesmo se os jurisconsultos lhe proporcionam justificativas.”

 

Jamais pensar nos outros, mas somente em si mesmo, não só não é humano, como é animalesco. Pensar nos outros após haver preenchido as nossas próprias necessidades é normal e permissível. Assim mesmo o Alcorão louva aqueles que preferem os outros acima de si mesmos, mesmo que a pobreza lhes sobrevenha como conseqüência.

 

Evidentemente, trata-se apenas de uma recomendação e não de um dever obrigatório imposto ao homem comum; se não a observarmos, não seremos considerados criminosos ou pecaminosos. Podemos citar também a tradição do Profeta Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele); em relação ao mesmo tema:

 

"O melhor dos homens é aquele que faz o bem aos outros.”

 

A orientação alcorânica pode ser considerada como tendência característica do Islam, como seja:

 

"Mas divulga a mercê do teu Senhor em teu discurso!" (Alcorão Sagrado 93:11).

 

Uma tradição do Profeta Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele); explica esse versículo de modo impressionante:

 

"Deus gosta de ver os traços de Suas graças sobre as Suas criaturas.”

 

Aconteceu que certa vez, um dê seus companheiros veio ter com ele vestido miseravelmente apesar de ser uma pessoa abastada. Quando o Profeta Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele); perguntou-lhe a razão, ele respondeu que ele preferia ter uma aparência miserável não por avareza, mas por devoção, já que ele preferia os necessitados a si próprio. O Profeta Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele); não aprovou isso, e impôs um limite ao auto-sacrifício. O Alcorão vai mais além:

 

"Não te esqueças de teus deveres neste mundo." (Alcorão Sagrado 28:77)

 

O Islam não admite que um homem pare de trabalhar e se transforme num parasita; pelo contrário, cada um deve usar todos os dons e talentos que possui para desfrutar dos frutos da criação de Deus, e adquirir tantos quantos possíveis; o que exceder as próprias necessidades pode ser destinado à ajuda daqueles que carecem do essencial. O Profeta Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele); disse de modo inequívoco:

 

"É melhor que deixeis para trás, vossos parentes bem providos, do que se vejam obrigados a pedir esmolas a outrem."

 

Apesar da imposição de práticas diárias consideráveis, o Islam não exige de ninguém a mortificação ou a miséria voluntárias; pelo contrário, o Alcorão censura aqueles que mantém tal comportamento:

 

"Dize-lhes: Quem pode proibir as galas de Deus e o desfrutar dos bons alimentos que Ele preparou a Seus servos? Dize-lhes ainda: Estas coisas pertencem aos que crêem durante a vida neste mundo (ainda que as compartilhem com os demais); porém, serão exclusivas dos crentes, no Dia da Ressurreição. Assim elucidamos os versículos aos sensatos." (Alcorão Sagrado 7:32)

 

Há as coisas que são permitidas pela lei: mas negar voluntariamente a si mesmo não é necessariamente um ato de devoção, como seria o caso da abstenção das coisas proibidas pela mesma lei.

 

 

A Crença em Deus

 

 

O homem parece ter sempre procurado conhecer seu Criador com o propósito de obedecê-Lo. Os melhores líderes religiosos de todas as épocas e civilizações têm estabelecido regras de conduta com esse fim. Os povos primitivos adoravam as manifestações dos poderes e beneficência de Deus, esperando desse modo agradá-Lo. Outros acreditavam em dois deuses distintos, um deus do bem e outro do mal; sem perceber a conseqüência lógica de tal distinção, que implica num conflito entre os deuses.

 

Outros ainda, cercaram Deus de mistérios que às vezes mistificam a pessoa de Deus. E ainda outros têm sentido a necessidade de ter símbolos, fórmulas ou gestos que mal os distinguem de suas próprias concepções da idolatria e do politeísmo.

 

Nesse campo, o Islam tem a sua particularidade. Ele acredita na absoluta Unicidade de Deus, e prescreve uma forma de culto e de oração que não admite nem imagens nem símbolos (considerando-os como reminiscências do primitivismo e da idolatria).

 

No Islam, Deus não é somente transcendente e imaterial, além de qualquer percepção física, como também é Onipotente. As relações entre o homem e seu Criador são diretas e pessoais, sem exigir qualquer intermediário. Até os mais santos dos santos, como os profetas, não passam de guias ou mensageiros; e cabe ao homem individualmente, fazer a sua escolha e de assumir sua responsabilidade perante Deus.

 

Ver-se-á desse modo que o Islam busca desenvolver a personalidade do indivíduo. Ele admite que o homem tem fraquezas, visto que é composto simultaneamente pelas capacidades tanto do bem como do mal; mas não admite que haja nele um pecado original, vendo que fazê-lo seria uma injustiça. Se Adão cometeu um pecado, não há porque este fato repassasse a responsabilidade aos seus descendentes (à posteridade), sendo cada ser humano individualmente responsável por sua própria conta e atos somente.

 

Em sua fraqueza, o indivíduo pode cometer ofensas a Deus ou contra seus semelhantes. Cada ofensa tem, em princípio, um castigo proporcional, mas o Islam reconhece a possibilidade do perdão, cujos constituintes, são o arrependimento e a reparação.

 

No que tange às ofensas contra o homem, elas devem ser reparadas, na medida do possível; para que a vítima possa perdoar graciosamente, ou, com a restituição do objeto que lhe fora tomado, ou pela reposição deste, ou de alguma outra forma semelhante.

 

No tocante às ofensas a Deus, o homem pode ser adequadamente punido ou receber o perdão magnânimo de Deus. O Islam não admite que Deus precise punir primeiro algum inocente para só então conceder Seu perdão a alguns pecadores arrependidos; pois tal seria injusto de parte d'Ele.

 

 

A Sociedade

 

 

Ao mesmo tempo que o Islam procura o desenvolvimento da individualidade do homem, também procura aperfeiçoar a coletividade social. Isto pode ser percebido de todas as suas determinações, sejam religiosas ou temporais.

 

 Assim, o culto de oração é em princípio, uma atividade coletiva (se em caso de necessidade há alguma isenção relativa às cinco orações diárias, não existe nenhuma em relação às congregações semanais ou anuais); a peregrinação é um exemplo ainda mais nítido, uma vez que os fiéis se reúnem no mesmo lugar, vindos de todos os pontos do planeta; o aspecto coletivo do jejum se manifesta no fato de ter lugar no mesmo mês para os fiéis de todo o mundo; a exigência de ter um califa, a obrigação de pagar o imposto do zakat para suprir as necessidades da coletividade, etc...

 

 Todas estas medidas visam o mesmo objetivo, vai naturalmente compreendido que na coletividade, ou sociedade, há urna força que as pessoas não possuem individualmente.

 

Por razões que são conhecidas melhor por Ele, Deus dotou diferentes indivíduos com diferentes qualidades. Dois filhos de um mesmo casal, dois alunos de uma mesma sala de aula, nem sempre possuem as mesmas qualidades ou capacidades.

 

Nem todas as terras são férteis; os climas diferem; duas árvores da mesma espécie não produzem a mesma quantidade de frutos, nem a mesma qualidade. Cada ser, cada parte do ser, tem suas próprias peculiaridades. Com base nesse fenômeno natural, o Islam afirma, por um lado, a igualdade original de todos, e por outro lado, a superioridade de um indivíduo sobre outro.

 

Todos são criaturas do mesmo Senhor, mas não é a superioridade material que conta para obter uma melhor apreciação junto a Deus. Somente a devoção serve de critério de grandeza do indivíduo. Afinal, a vida neste mundo não é senão efêmera e deve existir uma diferença entre o comportamento do homem e o do animal.

 

 

Nacionalidade

 

 

E é nesse sentido que o Islam rejeita o fundamento estreito da nacionalidade como elemento de solidariedade. A afinidade do parentesco ou com a terra de natividade, é sem dúvida natural; porém, o próprio bem da raça humana exige uma certa tolerância para com outros grupos semelhantes.

 

A distribuição da riqueza natural de diferentes partes do mundo em quantidades variáveis torna o mundo interpendente. Inevitavelmente, vemo-nos forçados a "viver e deixar viver"; caso contrário uma onda interminável de vendetas nos exterminaria a todos. A nacionalidade baseada na linguagem, na raça, na cor, ou no lugar de nascimento, é por demais primitiva; ela contém uma fatalidade, um impasse, algo em que o homem não tem escolha.

 

A noção islâmica é progressiva, e se baseia unicamente na escolha do indivíduo. Pois ela propõe a unidade de todos aqueles que acreditam na mesma ideologia, sem distinção de raça, língua ou lugar de domicílio. Uma vez que se exclui a exterminação ou subjugação dos outros, a única possibilidade válida é a da assimilação, e que meios servirão melhor à assimilação se não a crença na mesma ideologia? Podem reiterar que a ideologia islâmica é uma síntese das exigências tanto do corpo como da alma; além do que ela incute a tolerância.

 

O Islam tem proclamado que Deus sempre enviou Seus mensageiros, em diferentes épocas e entre povos diferentes. O próprio Islam não reivindica mais que a função de renovar e reviver a eterna mensagem de Deus, tantas vezes repetida pelos profetas.

 

Ele proíbe toda compulsão em matéria de crença religiosa; e por mais inacreditável que pareça, o Islam se obriga ao dever dogmático e religioso de permitir a autonomia dos não-muçulmanos domiciliados no solo de Estados Islâmicos.

 

O Alcorão, as tradições e a prática de todos os tempos exigem que os não-muçulmanos tenham suas próprias leis, administradas em seus próprios tribunais por seus próprios juízes, sem qualquer interferência por parte de autoridades muçulmanas em quaisquer assuntos, sejam religiosos ou sociais.

 

 

Visão Econômica

 

 

A importância social das questões econômicas é evidente demais para exigir qualquer ênfase. O Alcorão não exagera quando declara que os bens materiais constituem os meios próprios da subsistência da humanidade.

 

Se todos fossem pensar em ninguém além de si próprios, a sociedade correria perigo cada vez maior, pela simples razão de que há sempre alguns poucos ricos e um número bem maior de pobres; e no instante de lutar pela sobrevivência, a vasta maioria dos esfomeados exterminará, ao longo do curso, à maioria dos ricos. Uma pessoa pode suportar muitas privações, mas não de alimentos.

 

O conceito islâmico sobre este assunto é bem conhecido. Ele enfoca a constante redistribuição e circulação da riqueza nacional. Assim, os pobres são isentos dos impostos, enquanto os ricos são taxados para prover os necessitados.

 

Além disso, há leis que exigem a distribuição compulsória de heranças, que proíbem a acumulação de riquezas nas mãos de poucos, pelo banimento dos juros sobre empréstimos, e pela proibição de legados que prejudiquem a parentes próximos, etc., e aquelas que prescrevem regras de dispêndio da receita do Estado, visando urna redistribuição benéfica dessa renda entre beneficiários dentre os quais os pobres estão em primeiro lugar.

 

Resguardado esse ponto de vista, a lei tolera diferenças nos meios e métodos de acordo com a região, a época e as circunstâncias, desde que a meta seja alcançada. É tolerada a competitividade das empresas privadas enquanto esta não degenerar na exploração e ruína daqueles que são economicamente mais fracos.

 

Igualmente, será tolerado o planejamento global se isto parecer necessário, devido a circunstâncias ou à evolução econômico-demográfica. De qualquer modo, deve, ser evitado o desperdício de bens como também de energia, e devem ser adotados os meios que melhor se adaptem às necessidades do momento.

 

 

O Livre Arbítrio e a Predestinação

 

 

Isto nos traz à questão filosófica do livre arbítrio. Esse eterno dilema jamais poderá ser resolvido por pura lógica. Pois, se o homem desfruta do livre arbítrio em relação a todos os seus atos, isto afeta evidentemente a onipotência de Deus. Do mesmo modo, se Deus preestabelece o destino, porque então o homem deve ser responsável pelos seus próprios atos?

 

 O Profeta Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele); recomendava enfaticamente aos seus seguidores que não se envolvessem em debates sobre este tópico, "que já desvirtuou tantas pessoas que vieram antes de vocês"; e ele separou as duas questões, ou seja, a onipotência de Deus e a responsabilidade do homem.

 

Na verdade, não há lógica no amor, e o muçulmano ama o seu Criador; ele é incapaz de aceitar que Deus tenha atributos defeituosos; Deus não só é sábio e poderoso, como também é justo e misericordioso no mais alto grau. O Islam separa os assuntos celestiais, que são atributos de Deus, dos assuntos temporais, e insiste que os fiéis ajam; e uma vez que a vontade Divina repousa oculta ao homem, é dever deste jamais se desesperar após um fracasso preliminar, mas de tentar novamente e mais uma vez até que o objetivo ou é alcançado ou se torna impossível de realizar.

 

O conceito islâmico da predestinação vem no último case para consolar o homem: aquilo era a vontade de Deus, e o êxito ou fracasso nesse mundo não tem importância em relação à salvação eterna, assunto no qual Deus julga de acordo com as intenções e esforços e não de acordo com a medida de realizações e êxitos.

 

De acordo com o Alcorão (entre outras passagens) essa é a verdade que é sempre revelada por Deus aos Seus sucessivos mensageiros:

 

"Acaso, não foi inteirado de quanto encerram os livros de Moisés? E os de Abraão, que cumpriu (suas obrigações)? Que nenhum pecador arcará com culpa alheia? E que o homem não obtém senão o fruto de seu proceder? E que seu proceder será examinado? Depois, ser-lhe-á retribuído com a mais eqüitativa recompensa? E que pertence a teu Senhor o limite”. (Alcorão Sagrado 53:36 ao 42)

 

Se o homem não se considerasse responsável pelos seus atos perante Deus, Todo Poderoso, ele não mereceria nem punição nem recompensa. Para resumir, já que o Islam separa completamente as duas questões, não é difícil ao Islam admitir ao mesmo tempo os requisitos do homem (esforço, senso de responsabilidade) e os direitos de Deus com todos os Seus atributos, incluindo o poder de predeterminar.

 

A predeterminação no Islam tem um outro significado não menos importante, qual seja, de que é somente Deus Quem sozinho determina ao ato humano a qualidade de bem ou de mal; é somente Deus Quem é a fonte de toda lei. São as prescrições Divinas que devem ser obedecidas em todo o nosso comportamento; as quais Ele nos comunica através dos Seus mensageiros escolhidos. Muhammad (que a Paz e Bênção de Deus estejam sobre ele); foi o último desses, e também aquele cujos ensinamentos foram melhor preservados. Não possuímos os originais das mensagens mais antigas, que sofreram danos nas infelizes guerras fratricidas da sociedade humana.

 

O Alcorão não é apenas uma exceção à regra, mas constitui também a última mensagem Divina. É tido como convencional que, as leis de data mais recentes revogam as disposições contrárias anteriores do mesmo legislador.

 

Concluindo, vamos nos referir a outra característica da vida islâmica: É dever do muçulmano não apenas obedecer a lei Divina em sua conduta diária, em sua vida como um indivíduo bem como parte da coletividade, e em sua vida temporal tanto quanto espiritual; ele também deve contribuir, de acordo com as suas capacidades e condições, para a propagação dessa ideologia que se baseia na revelação Divina e é destinada ao bem-estar de todos.

 

Ver-se-á que um credo tão composto, abrange a vida inteira do homem, não somente material como também espiritual; e de que, de acordo com ele, cada um vive neste mundo em constante preparação para a Outra Vida.